Páginas

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

PEQUENO RELATO APÓS VISITA AO ROTEIRO JARDIM VAZ DE LIMA.

Livros para quem precisa

Dia 18 de janeiro passado foi um grande dia! Acompanhei o roteiro do Ônibus-biblioteca rumo à zona Sul da cidade, Jardim Vaz de Lima, entre o Capão Redondo e o Jardim São Luiz.

Certamente Mário de Andrade não imaginava que o projeto criado por ele nos anos 1930, quando secretário de Cultura de São Paulo, chegaria tão longe. Esse é um dos 28 roteiros cumpridos pelos quatro veículos doados à Secretaria Municipal de Cultura, adaptados com prateleiras internas e toldo lateral. Amarelo-ovo é a cor escolhida, afinal ele precisa mesmo chamar a atenção.

Acompanhei as bibliotecárias Virgínia Lopes e Lélia Haak, mais o motorista Márcio, contratado pela Libre - Liga Brasileira de Editoras, num acordo iniciado em 2008. É grande a distância entre a Biblioteca responsável pelo acervo do projeto, localizada na Subprefeitura da Moóca, e o Jd. Vaz de Lima, tudo sacoleja dentro do ônibus que corta avenidas e ruas esburacadas da megalópole paulistana.

É notável o empenho de Virgínia e Lélia na tarefa de atender ao público, em sua maioria mulheres e crianças interessados em emprestar livros, ler jornais do dia e revistas da semana. Mesinha com controles e fichas foi instalada, a sombra de algumas árvores tornou desnecessário abrir o toldo, um calor tomou conta de tudo e precedeu a chuva do final da tarde. E as pessoas começam a chegar.

Ao invés de almoço, um lanche enganou os estômagos das trabalhadoras. Banheiro, só em visita rápida à base da PM ali vizinha. As horas passaram rápido e logo chegou o momento de encerrar o atendimento. Ao final, partir rumo ao centro com a sensação de missão cumprida.

Esse roteiro me chamou a atenção porque foi o bairro em que vivi grande parte da infância e juventude. Na época em que estudei na Escola Estadual de 1o. Grau João Sussumu Hirata, a biblioteca mais próxima ficava em Santo Amaro, onde dificilmente minha turma conseguia chegar pois faltava dinheiro para pagar passagem e, assim, fazer uma pesquisa decente nos trabalhos da escola.

A praça que hoje abriga o Ônibus-biblioteca é a mesma onde minha mãe fazia a feira livre de quinta-feira, no final dos anos 70 e começo dos 80. Hoje a praça comprida e arborizada também abriga uma base da Polícia Militar, que naquele horário fazia blitze em veículos que passavam rumo ao Jardim Thomas e Parque Santo Antonio.

Não fiquei junto delas durante todo o tempo, percorri ruas e procurei encontrar amigos de duas décadas e meia atrás. Encontrei uns, ouvi relatos, soube que a vida ali continua difícil; não encontrei outros, seja porque saíram como eu, ou porque foram mortos pelos adversários da vida. Muita gente não conhecia ainda o projeto do Ônibus-biblioteca, fiz propaganda e me olharam com espanto, "ah, é, que legal, hora dessas vou levar as crianças lá".

Falei que costumávamos trazer oficineiros para conversar e brincar com os interessados. Perguntaram-me se tinha livro didático. Como bem lembrou Lélia, querida bibliotecária, seria tão bom se voltássemos à época em que o Ônibus-biblioteca pudesse contar com agentes de saúde e educadores junto com os livros. Não seria o caso da gente abrir espaço para discutir ideias antigas e novas, com o objetivo de aperfeiçoar o trabalho?

Antigamente aquele posto de combustível não existia, aquela banca de jornal não era tão pequena e não tinha tanta loja assim, com gente andando rápido em todas as direções. Cadê o mercadinho do Minoru, o japonês que apesar do empenho mal falava português? Tornou-se um mercado de médio porte, com padaria ao fundo e segurança reforçada na porta. E a casa de produtos nordestinos, onde minha mãe comprava o delicioso bolo de mandioca? A mercearia que vendia verduras frescas foi substituída pela lan-house e a pequena loja de móveis com crediário próprio cresceu. Não imaginei que veria tantos carros por aqui.

No trajeto de volta ao centro, testemunhamos o atropelamento de uma mulher, no corredor de ônibus da Estrada de Itapecerica. Tristeza. Mais adiante, um cheiro insuportável de esgoto e água podre, próximo da ponte sobre o Rio Pinheiros. Ao cruzar a ponte para o lado de cá do rio, sinto que o lado de lá ainda carece de muita coisa, principalmente dos livros.

E viva Mario de Andrade, viva o Ônibus-biblioteca, viva os trabalhadores e trabalhadoras da Secretaria Municipal de Cultura, viva os apoiadores do projeto e viva o povo brasileiro!
--
Rogério Chaves
Coordenador editorial
Editora Fundação Perseu Abramo
f: 11 5571 4299 ramal 136
 --
Texto enviado por: Erika Balbino (Baobá Comunicação)
--
Agradecemos, imensamente, ao Rogério, pelo relato tão cheio de: memórias, sinceridade, emoção e descrição. Enquanto lia, imaginava a sua reação quando via as mudanças trazidas pelo passar do tempo. Um tempo que só se pode ser sentido, com todas as marcas feitas, somente dentro d'alma! Obrigado por esse momento. Mais uma vez, obrigado pelo texto.

João Batista de Assis Neto
Responsável pelo Blog.

Roteiro Jardim Vaz de Lima (J. São Luis)

Até a próxima parada!
Ônibus-Biblioteca: onde se lê por prazer.

Um comentário:

  1. Estimado João Batista,
    Obrigado pela publicação e pelo comentário tão bacana!
    Vcs cumprem um papel muito importante com o projeto, sigam em frente pois tem muito a ser feito ainda, né?
    Abraço fraterno!

    Rogério

    ResponderExcluir