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quinta-feira, 3 de junho de 2010

LITERATURA DE CORDEL: UM TEXTO PRIMOROSO DE ADERALDO LUCIANO.

Literatura de Cordel, Literatura Brasileira.



APROPUC-SP 10.03.09


Aderaldo Luciano



1. Uma literatura da terra


A Literatura de Cordel, vista muitas vezes, ou quase sempre, como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, é fenômeno ímpar. Afirma Joseph M. Luyten:

Ao contrário de outros países, como México e Argentina, onde esse tipo de produção literária é normalmente aceita e incluída nos estudos oficiais de literatura - por isso poemas como "La cucaracha" são cantados no mundo inteiro e o herói de cordel argentino, Martin Fierro, se tornou símbolo da nacionalidade platina - as vertentes brasileiras passaram por um longo período de desconhecimento e desprezo, devido a problemas históricos locais, como a introdução tardia da Imprensa no Brasil (o último país das Américas a dispor de uma imprensa), e a excessiva imitação de modelos estrangeiros pela intelectualidade (Luyten apud Vicente, 2000, prefácio).

Acrescentamos à observação do Dr. Luyten o aspecto preconceituoso com que as elites acadêmicas brasileiras olharam para a produção poética popular. De fato, nossos compêndios e manuais de história da literatura brasileira, incluindo-se livros didáticos destinados ao ensino fundamental e médio, desviam-se da Literatura de Cordel como o diabo da cruz, utilizando o termo "popular". Qualquer citação virá eivada de caráter exótico, nunca com apuro crítico. Como experiência, procuremos o verbete Literatura de Cordel na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza. Encontraremos menção a dois ou três títulos de ensaios sobre o tema, mas nada sobre ela mesma. O verbete veio na letra C, "Cordel, literatura de". Esse verbete repete o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, ao mesmo tempo em que a associa à memória dos cantadores e vates populares, seus transmissores orais. Para depois passar à classificação dos temas versados, citando Franklin Maxado:

... folhetos de época, de ocasião, históricos, didáticos ou educativos, biográficos, de propaganda política ou comercial, de louvor ou homenagem, de safadeza... (Cascudo, 2002: 527)

são arrolados uma infinidade de temas. Chama-nos a atenção o fato primeiro de o verbete não vir na letra L de literatura, mostrando-se excludente. Por que apresentá-la como Cordel? Será porque não é aceita como literatura?

Quando situa a literatura de cordel como versão escrita da oralidade poética dos cantadores, é, no mínimo, omissa, a Enciclopédia, chegando ao risível. Ora, toda a literatura universal não é herança da oralidade? A escrita não é fruto secundário da linguagem? Por que, então, observar isso como característica da literatura de cordel?

E no que diz respeito ao tema: toda a literatura não trata dos mesmos temas? Para quê uma listagem de temas, se a produção literária é fruto da observação social e da vivência particular de cada autor? Para mostrar, exoticamente, que, apesar de o autor popular ser um homem simples, preocupou-se com temas os mais diversos, como se estivesse descobrindo o mundo e seus semelhantes, emergindo das trevas profundas da ignorância?

Todas as literaturas nacionais têm a sua formação no conjunto de lendas e histórias contadas pelo seu povo, repassadas oralmente. A literatura grega funda-se sobre as narrativas homéricas. A teoria e a crítica literária tiveram sua gênese com as normatizações apresentadas por Aristóteles sobre esse corpus. Tomando, ainda, a literatura grega como arrimo, seus temas não passaram pelos mesmos da literatura de cordel? Não houve uma poesia didática com Hesíodo? E romances de amor e aventura com Xenofonte de Éfeso e Aquiles Tácio?

Poderíamos nos alongar sobre exemplos da literatura alemã com A canção dos Niebelungos; da francesa, com A canção de Rolando; da espanhola, com O cantar do meu Cid, ou ainda mencionar as baladas dinamarquesas do século XVII para sustentar o raciocínio sobre a formação das literaturas com gênese na oralidade como processo natural.

Tratávamos, em parágrafo anterior, da presença da literatura de cordel nos estudos sobre literatura brasileira. Aliás, tratávamos da ausência. Nenhum dos nossos reconhecidos estudiosos reserva-lhe lugar em suas obras principais. Sabendo-se que Leandro Gomes de Barros foi o primeiro a publicar seus folhetos e editá-los sistematicamente, não lhe é devida nenhuma citação em Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos, de Antonio Candido, nem em A Literatura Brasileira, de José Aderaldo Castelo, tampouco na História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi. Dá-se o mesmo em Ronald Carvalho, Nelson Werneck Sodré e José Veríssimo. Sílvio Romero, embora não o cite, nem poderia, visto não terem sido contemporâneos, em sua História da Literatura Brasileira trata das tradições populares, referindo-se ao seu volume dedicado a estudos sobre poesia popular no Brasil.

Quanto aos livros didáticos, o que se apresenta é uma periodização das Épocas Literárias desde Portugal. Mesmo atribuindo valor ao trovadorismo português, ao cancioneiro de Garcia de Resende, às cantigas de Martim Codax e D. Dinis, ou Joan Airas de Santiago, escritos primevos, nada sobre Literatura de Cordel. É como se esse fenômeno não tivesse acontecido. Deve-se ao trabalho de pesquisadores particulares, paladinos e quixotes, a tentativa de integração e enquadramento dessa literatura no todo literário brasileiro, exemplo seguido por algumas instituições, como a Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, Pernambuco, citando as mais conhecidas.

Que essas observações sejam feitas não como meta de nosso pequeno roteiro de estudos. Sejam, sim, uma marca a ser observada em nosso rumo. A constatação de como um produto tão rico e importante na construção de uma nação, a nação identitária dos nordestinos e a brasileira por extensão, por motivos os mais diversos, é esquecido do que Ariano Suassuna, citando Machado de Assis, diz ser o Brasil Oficial.

Arnaldo Xavier, no artigo O Maior Poeta que Deus Crioulo (Xavier, in www.muse.jhu.edu/demo/cal/18.4xavier_p.html), diz que a Literatura de Cordel "... é uma forma única de comunicação que mistura poesia, humor e epopéia." Essa compreensão acrescenta uma qualidade que pode inserir definitivamente essa forma de produção literária naquele todo brasileiro já citado. A característica épica.

As aproximações de Ariano Suassuna, vide o Auto da Compadecida, cujos heróis João Grilo e Chicó são crias confessas da Literatura de Cordel, e de João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina, com seu Severino retirante, dão bem a dimensão do poder transformador do cordel.

Esse poder torna-se ainda mais observável quando propomos fazer uma aproximação com a épica clássica. Para vários autores, a literatura brasileira inicia com a Prosopopéia, de Bento Teixeira (1601), marco, também, do Barroco brasileiro. O poema épico traduz-se como uma imitação capenga de Camões, além de ser uma peça encomiástica que de literatura pouca coisa possui. No dizer de Anazildo Vasconcelos da Silva: "A importância da Prosopopéia está em ser a primeira obra, na ordem natural, a fazer a sintonia histórico-cultural do Brasil com o mundo" (Silva, 1987: 26).

Essa obra, detendo valor histórico-cultural, sobrepõe-se a toda produção do cordel, levada a cabo numa terra sobre a qual apenas os infinitamente mais fortes se fixam. Entre o valor literário da Prosopopéia e o valor literário da produção do cordel, quem estaria mais próximo do épico? O imitador de Camões ou o autêntico cancioneiro nordestino? Apresentar respostas com mais perguntas é, agora, o mais sensato. Que foi feito de Sousândrade? O Guesa foi esquecido, deixado à sombra, para só há pouco ser definitivamente incorporado ao Cânone da literatura brasileira. Mas, o que é o Cânone literário brasileiro? Certa vez, Olavo Bilac riu sobre os versos de Augusto dos Anjos, aquele caso singular da literatura brasileira. Comentando o título de Príncipe dos Poetas obtido, em votação, por Bilac, diz Carlos Drummond de Andrade:

Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo a má informação porque o título, a ser concebido, só poderia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista FON-FON, mas vastamente popular no Nordeste do país, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor de "Ouvir Estrelas" (Drummond de Andrade apud Barros, 2002: 18).

Dito isso, discorre sobre diferenças entre os dois poetas:

Um é poeta erudito, produto da cultura urbana e burguesia média; o outro, planta sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza.

Arrematando:

Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este, espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidos nas feiras a um público de alpercatas ou de pé no chão.

Fecha dizendo sobre Leandro:

... Não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro.

Volta a pergunta para reflexão: o que é o nosso cânone literário e quem o elege?

Adiantemo-nos. O nosso primeiro poeta genuíno foi Gregório de Mattos, que popularizou a poesia na Bahia. Por longos anos, suas peças satíricas foram relegadas ao limbo, ao umbral, detrectadas, enquanto sua produção religiosa e lírica era estudada em longos serões e conferências. Mas, essa produção esbarra nos apócrifos e apógrafos reproduzidos em folhas soltas pelas esquinas da cidade de Salvador, o que lhes confere um caráter duvidoso. E isso não ofusca a pena do Boca do Inferno. O Boca de Brasa é poeta e, assim como Abraão, aquele patriarca hebreu, pai de dois filhos: Isaac, representando os escolhidos, o cânone, com uma seqüência que vai dos árcades aos concretistas e à vanguarda pós-moderna atual, e Ismael, representando os banidos, abrangendo todo um arsenal de poetas populares, desde Leandro Gomes de Barros até Azulão, despachando versos na Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

2. Cordel e épica

Ao tomar a Prosopopéia, de Bento Teixeira, para o trabalho de comparação sobre épica, quisemos lançar olhares para essa característica da literatura de cordel. Durante seus primeiros tempos, a literatura brasileira, como toda e qualquer literatura colonial, foi a sombra da metrópole, da Europa. A literatura de cordel, também em formação, aproveitou-se de temas europeus. Daí porque as histórias de cavalaria e bravura irrigaram nossos folhetos. Citar uma ou outra, fazer levantamentos e catalogações seria redundante em nosso contexto, visto que outros já o fizeram com maior acuidade. E mesmo, é o óbvio. O certo é que, assim como o todo literário brasileiro, buscava-se uma identidade. Havia a forma, o conteúdo era ainda difuso. O encontro da literatura de cordel com o cangaço nordestino foi como o estabelecimento do caminho a ser seguido. O assunto, gerado a partir de problemas sócio-econômicos -e culturais, transformou-se no ponto decisivo da criação de uma identidade literária. O ciclo épico dos cangaceiros na literatura de cordel é o marco divisório. O Nordeste começou a falar de si e a buscar seus heróis, encontrando nos cangaceiros seus representantes na luta contra a injustiça social. Observa Mark Curran:

No cordel, o cangaceiro é o herói por excelência, misto de bandido, criminoso e lutador pela justiça no sertão nordestino. Nas obras cordelianas contemporâneas, é visto como o tipo heróico legítimo, maior do que a vida, verdadeiro "cavaleiro do sertão", com as cintas repletas de balas, o rifle "papo-amarelo", o revólver e o facão. É conhecido pelos epítetos: Rei do Cangaço, Rei do Sertão, Terror do Nordeste, Rifle de Ouro, Leão do Norte, Mestre da Morte e, no caso do célebre Lampião, Galo Cego (Curran 2001: 61).

Reiteramos que esse encontro ofereceu à literatura de cordel o seu herói. Franklin Távora, em 1876, apresentava, sob o nome de Literatura do Norte, um volume, um romance histórico, cujo herói era um desses: o Cabeleira. Um precursor, talvez. Távora afirma que

... o protagonista da presente narrativa, o qual se celebrizou na carreira do crime, menos por maldade natural, do que pela crassa ignorância... Autorizavam-nos a formar este juízo do Cabeleira a tradição oral, os versos dos trovadores e algumas linhas da história que trouxeram seu nome aos nossos dias envolto em uma grande lição (Távora, 1973: 31).

O apelo popular e seus versos, ao que parece, já tentavam construir uma identidade, pautada na ausência de justiça. Como nos revela o Major Optato Gueiros, da Polícia de Pernambuco, oficial responsável por combater e perseguir cangaceiros: "Dentre as causas propulsoras da evolução do banditismo, não resta a menor dúvida, que figura em primeiro plano a injustiça" (Luna, 1972: 23).

E como salienta Luis da Câmara Cascudo:

O sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente (...) Para que a valentia justifique ainda melhor a aura popular na poética é preciso a existência do fator moral. Todos os cangaceiros são dados inicialmente como vítimas da injustiça. Seus pais foram mortos e a justiça não puniu os responsáveis. A não-existência desse elemento arreda da popularidade o nome do valente. Seria um criminoso sem simpatia.

O sertão indistingue o cangaceiro do homem valente (Cascudo, 1984: 160-61).

Ou mesmo a revolta de Zé da Luz:

Na Capitá Federá,

Tenho visto brasilêro

Dizê que o sertão só dá

Assarcino e cangacêro!

Cangacêro e assarcino!...

- O qui faltou no sertão

Foi livro prá Antonho Silvino,

Justiça prá Lampião! (Luz, s/d: 1949)

Claro que o nosso trabalho não quer justificar o cangaço, tampouco estudá-lo em minúcia, mas tão-somente situá-lo, numa preparação ao encontro com aquele que marcará definitivamente a história da Literatura de Cordel e do Nordeste, tornando-se um ícone indelével.

Desde aquele Cabeleira, outros foram se destacando neste tipo de empreitada: a formação do cangaço. Luis Luna apresenta-nos um rosário de cangaceiros:

Zé Pereira, Antonio Silvino, Casemiro Honório, os irmãos Porcino, Antonio Quelé, os chefes mais importantes do cangaço... Essa chuva caiu quando Virgulino Ferreira da Silva mal entrava na adolescência, aos 17 anos de idade (Luna, 1972: 24-25).

Leandro Gomes de Barros dedicou boa parte de seus folhetos ao cangaceiro Antonio Silvino. Certamente, se tivesse sido contemporâneo de Lampião, a produção cordeliana sobre o Rei do Cangaço teria triplicado sua importância.

Abramos um pequeno espaço para uma indicação, pela qual acreditamos poder desfazer um equívoco. Muitos estudiosos confundem a poesia dos cantadores repentistas nordestinos com a Literatura de Cordel. É certo que sejam irmãs. E como todos os irmãos, sejam, também, diferentes. Os poetas cordelistas raramente são repentistas ou glosadores. São poetas da letra, conhecidos como poetas de bancada, sofrendo inclusive algum preconceito por parte daqueles. O repente é obra de momento, é construção oral cuja maior característica é ser efêmero, fruto do improviso. Por isso são famosos os desafios e pelejas, nos quais dois cantadores se debatem em criações e trava-línguas, em perguntas e respostas. O Cego Aderaldo gabava-se de nunca ter repetido um verso. Nenhum cantador que se preze escreverá seus versos para depois os decorar, cantando-os memorizados. Cantar com versos decorados é uma desfeita, uma aberração causadora de constrangimentos e agressões. O verso cordeliano, ao contrário, é fruto do trabalho, da elaboração. É o mesmo trabalho beneditino da Profissão de Fé de Olavo Bilac (Bilac, 1940: 5-10).

Os equívocos e maus olhares com que a Literatura de Cordel foi observada por muito tempo precisam urgentemente de revisão. Se, para Antonio Candido, a existência de uma "literatura propriamente dita" requer alguns denominadores:

... a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade (Candido, 1997: 23).

A produção cordeliana cumpre os pressupostos. É literatura. E mais: pela importância superior na construção identitária de um povo, não pode mais ficar de fora dos estudos sobre formação da literatura brasileira, nem ser um mero artigo, parente do artesanato. Repetimos Sílvio Romero:

Se vocês querem poesia, mas poesia de verdade, entrem no povo (...)

Poesia é no povo. Poesia para mim é água em que se refresca a alma e esses versinhos que por aí andam, muito medidos, podem ser água, mas de chafariz, para banhos mornos em bacia, com sabonete inglês e esponja. Eu, para mim, quero águas fartas - rio que corra ou mar que estronde. Bacia é para gente mimosa e eu sou caboclo, filho da natureza, criado ao sol (Romero apud Mota, 1987: 25).

3. Finalmentes

As invasões e descobrimentos foram revelando epopéias nacionais pelo mundo: o Mahabarata, na Índia; a saga de Átila e Os Nibelungos germânicos; os Edda nórdicos. O descobrimento português sepultou nossas epopéias. Não as cantamos, pois não as conhecemos. O surgimento da literatura de cordel, todavia, ofereceu-nos uma segunda chance. Os temas cantados por ela, em seus princípios, eram temas ibéricos. Versões populares para os poemas épicos franceses e espanhóis. Mas essa mesma busca de identidade, que moveu escritores cultos, levou-a a cantar (ou contar) fatos sociais recentes, transformando-se numa espécie de imprensa sertaneja. Foi o período de estabelecimento de seus alicerces formais.

Um trabalho que pense a relação entre as epopéias nacionais e a Literatura de Cordel seria o fruto dessa breve conclusão. Ao propormos um olhar mais aguçado e menos preconceituoso para o cordel nordestino, referimo-nos ao fato de que todas as tentativas de escrever uma epopéia nacional tenham sido, de certa forma, ou de forma certa, infrutíferas. Enquanto isso, com toda sua fragilidade, de base popular, sofrendo perseguições e sendo ignorada, a Literatura de Cordel resistiu, fundou sua própria poética, consagrou poetas, penetrou em todas as camadas sociais, influenciou escritores e estudiosos, transformou-se num símbolo, ícone, índice, signo e sinal de uma Nação e, ao encontrar a matéria épica dos cangaceiros, em particular o épico maior, Lampião, estabeleceu-se definitivamente como veículo portador de nossa verdadeira identidade. Literatura de cordel como tal, só acontece no Brasil. Perguntamos, em última instância: Quando exumaremos os nossos mortos para dar-lhes destinos decentes? Servir-nos-ia a voz do último cantor épico Marcus Accioly (Accioly, 2001: 101):

Ah pudesse eu cantar os teus heróis

(uns poucos que conheço em meu país)

os de rifles lixados pelos sóis

(de alpercatas-de-sola sem verniz

sobre o couro curtido) os dos aiós

da vida (há trinta anos por um triz

da morte) e cartucheiras de cangaço

em cruz no peito (as tais cangas-de-aço)

vivendo cada dia o mesmo risco

de cada noite (o tempo com um baralho

cortado ao meio em lances de perigo)

ó tarô da existência (ó jogo falho)

ah pudesse eu cantar Lusbel-Corisco

(Diabo-Louro) "uns sapatos do caralho"

(como diria Márquez) Lampião

com seu olho (à Camões) vendo o Sertão

(sim) pudesse em cordel cantar (...)

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Bibliografia
ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Recife: FUNDARPE, 1986.

__________. Latinoamérica. Rio de Janeiro: Topbooks/Biblioteca Nacional, 2001.

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CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Vol. 1. 8 ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1997. (Reconquista do Brasil, 2ª série, V. 177)

CARVALHO, Ronald. Pequena história da literatura brasileira. 13 ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1984. (Biblioteca brasileira de literatura, V. 4)

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CURRAN, Mark. História do Brasil em cordel. 2 ed. São Paulo: EDUSP, 2001.

LITERATURA POPULAR EM VERSO. Estudos. Tomo I. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1973. (Coleção de textos da Língua Portuguesa moderna)

LUNA, Luiz. Lampião e seus cabras. Rio de Janeiro: Livros do Mundo Inteiro, 1972.

LUYTEN, Joseph M. A notícia na literatura de cordel. São Paulo: estação Liberdade, 1992.

__________. O que é literatura popular. 2 ed. Sã o Paulo: Brasiliense, 1984. (Primeiros passos, V. 98)

LUZ, Zé da. Brasil caboclo. 6 ed. João Pessoa: Acauã, s.d.

ROMERO, Silvio. Estudos sobre a poesia popular do Brasil. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1977. (Dimensões do Brasil).

__________. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. Vol. 2, 3 e 4.

SILVA, Anazildo Vasconcelos da. Semiotização literária do discurso. Rio de Janeiro: Elo, 1984.

VICENTE, Zé. Combate e morte de "Lampião". In: Zé Vicente: poeta popular paraense. São Paulo: Hedra, 2000. (Biblioteca de Cordel).

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Aderaldo Luciano Mestre em Ciência da Literatura e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

FONTE: http://www.apropucsp.org.br/apropuc/index.php/revista-cultura-critica/31-edicao-no06/252-literatura-de-cordel-literatura-brasileira (Acesso: 03/06/10).

VALE DESTACAR:
Esse estudioso do Cordel também enriquece as Oficinas Literárias que acontecem nos Roteiros de Leitura do Ônibus-Biblioteca, em convênio com a Liga Brasileira de Editoras - LIBRE. Nessas oficinas, há grandes nomes da Literatura de Cordel Contemporânea, os quais formam a fabulosa "Caravana do Cordel". Para conhecer a Caravana, acesse:
http://adercego.blogsome.com/

http://varnecicordel.blogspot.com/

Até a próxima parada!

Ônibus-Biblioteca: onde se lê por prazer.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo trabalho!

    Me permite usar o espaço para fazer um pedido?

    Gostaria de saber se alguém do ônibus biblioteca já conheceu alguém da família do João Beiçola, pois o grupo Humbalada, gostaria de entrevistar um parente dele.

    O Humbalada estará ai na praça a partir de 24/07/2011 as 15 horas, com espetáculos teatrais.

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