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segunda-feira, 7 de junho de 2010

IMPRESSÕES DE SÉRGIO SÁ SOBRE OFICINA, MINISTRADA POR ELE, NO CAPÃO REDONDO.

ÔNIBUS-BIBLIOTECA DESTACA:

Sobre a inclusão social: depoimento de Sérgio Sá, cego de nascença, autor do livro FECHE OS OLHOS PARA VER MELHOR, e sua participação em oficina do Ônibus-Biblioteca /PMSP.


Naquele meio-dia garoento, estacionamos apreensivos; o ônibus parecia vazio. Poucas crianças escolhiam livros e quase nem perceberam nossa entrada.

Acomodei-me, Pedro colocou os livros e CDS. Foi quando uma menina se aproximou curiosa perguntando:

-- Ele que escreveu estes livros?

Sua irmãzinha também veio se achegando e logo um garoto, atraído pela conversa, pegou num CD:

-- Ele é cantor?

Em menos de 3 minutos eu já tinha uma platéia atenta de 5 crianças,com idades variando entre seis e dez anos, enchendo-me de perguntas:

-- Mas como é que o senhor escreve?...

-- E como é que toca teclado?...

-- O senhor é casado?, tem filhos?, mas precisa de alguém pra levar o senhor pela casa, né?...

-- E este óculos?, pra que é que o senhor usa?...

A partir do meu livro “Feche Os Olhos Para Ver Melhor”, escrito justamente para esclarecer sobre os problemas e complicações de quem vê e só acredita vendo, fui abrindo questões e fazendo a criançada perceber o quanto podemos compreender o mundo, sem a visão.

Meu celular, adaptado ao uso de deficientes visuais através de software especial, foi ferramenta importante para acentuar o valor da tecnologia em minha vida.

-- Quando eu tinha a idade de vocês, não contava com todas estas facilidades, tipo computador com programa falante ou celular onde posso fazer praticamente tudo que qualquer pessoa pode fazer.

Minha platéia foi se alternando, mães de crianças e novos espectadores mirins iam e vinham, mas pude brincar com todos; fazendo, por exemplo, com que exercitassem seus outros sentidos: "Temos aqui uma garrafinha cheia dágua e um copo vazio. Sabem?, tenho 4 jeitos de encher este copo e saber quando está cheio sem precisar enxergar. Alguém pode me dizer quais são?...".

Eles foram investigando, enquanto tentavam a proeza de olhos vendado se descobriram:

- Bom!, à medida que enche, a mão vai sentindo um friozinho...

- É só enfiar o dedo no copo e sentir se ta cheio!

- O peso do copo!, dá pra gente ir calculando...

- O barulho que a água faz enquanto vai caindo!, vai ficando mais fininho...

O fato é que quase todos conseguiram encher até o topo sem derramar nada. Algumas mães e irmãos mais velhos também brincaram, estimulados pelas crianças:

- Vai!, faz, mãe!, é mó da hora!...

Assustado com a possibilidade de haver muita gente, era minha segunda experiência com as Oficinas, acabei me divertindo e comovendo com a receptividade daquelas menos de 15 pessoas, durante as duas horas de trabalho. Foram momentos gratificantes dos quais pude concluir que, às vezes, a qualidade da atenção supera a quantidade de espectadores,quando queremos mesmo passar algo interessante e enriquecedor.

Tudo isso sem contar a curiosidade quase insaciável das crianças, sempre capazes de fazer as perguntas mais ingênuas, mais ricas... Eis aí uma porta, diria até um portal por onde a inclusão social terá livre trânsito, desde que seja explorado com consciência e sensibilidade.

Fonte: enviado por e-mail por Michelle F. Lopes.
 
  Não deixe de ler este livro, de Sérgio Sá!

Conheça um pouco mais sobre essa figura fabulosa em:


Até a próxima parada!
Ônibus-Biblioteca: onde se lê por prazer.

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